segunda-feira, 6 de abril de 2009

[pus meu olhar no horizonte...]

pus meu olhar no horizonte
a ver se enfim chegavas ...
sol nasceu e sol se pôs
onda veio e maré foi
tanto vento, tanta areia
e nada...
uma gota que caía dos meus olhos
à água do mar se misturou
sal marinho, doce pranto
partiu o tempo
quebrou o encanto
e de tanto esperar
estático
meu amor enregelou...
'

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Crônicas Íntimas II: Carpas




Eram turvas aquelas águas e o cheiro não era bom. Pedras escuras, cheias de limo, davam um contorno sombrio aos tanques. Neles, as carpas sobressaíam. Era um contraste, aqueles bichos vermelhos, alaranjados, cada qual com sua estampa, como se alguém os tivesse pintado a mão. Tudo em volta parecia tão morto, só os peixes eram testemunhas da sobrevivência. Irônico, que a vida estivesse restrita àqueles animais frios de olhares baços.
Havia no parque muito mais sombra do que luminosidade. Como a vida. Aqui e ali, há um clarinho, um sol, um pouco de calor, mas, no correr dos dias normais, dos dias iguais, sem vicissitudes, havia o parque.
A menina lá rodopiando, passava do escuro à luz, num ir e vir, sem se dar conta. O brinquedo era barato: um guarda-chuvinha de papel plissado, colorido, como lanterna chinesa, de crepom. Sinhazinha de outros tempos, dançarina de frevo, trapezista, ela era um pouco de cada gente que, supunha, vivia muito e intensamente. Sonhava.
Mas a melhor parte era sempre ir ver as carpas. Jogava-lhes bolinhas de miolo de pão e não sabia se ficava mais atenta aos peixes ou aos círculos que se espalhavam, concêntricos, pela superfície. Imaginava-se como um círculo daqueles, a se espalhar na água, dissolvida. São ondas, dissera uma vez o pai. Então, há alguém que joga pedras em algum ponto distante do mar? É assim que as ondas chegam à praia? O pai sorria e lhe afagava o cabelo. Riam.
A chuva de verão caiu pesada e quente. Desinformada da natureza das coisas, pôs-se debaixo do aguaceiro com o guarda-chuva de papel. Rapidamente ele perdeu a cor, depois a forma, até que se desfez. Tons de verde, turquesa, rosa e amarelo escorriam-lhe pelo braço, pela roupa clara, pelas pernas. À medida que corria, mais a água da chuva e o choro iam espalhando as cores em seu corpo. Será que as carpas tinham tido também um guarda-chuva de papel crepom? Será...?
Tinha sempre na cabeça uma pergunta, uma questão, um por quê. Cultivava sempre a idéia estranha de ser um bicho de água, nascido em terra seca por engano. Ou então, pensava que vivia no continente errado, ou num tempo que não era o seu. Eram os jeitos que a meninice encontrava para circunscrever a sensação definitiva de não pertencimento. Vivia como as carpas coloridas, contrastantes de seu cenário.
Passou o tempo, acabou-se o parque. Devem ter morrido todos os peixes. Acabou-se a menina. Devem ter morrido todos os sonhos. Sobrou dela, apenas, uma mulher fora do lugar. Uma mulher colorida, em eterno contraste com o cinza do mundo.


fonte da imagem: http://kucharek.com/Picture%20064.jpg

quarta-feira, 1 de abril de 2009

[a insônia é boa...]


a insônia é boa
quando, aberta a janela,
o ar se enche
do aroma adocicado

dama-da-noite
me envolve
em seu carinho perfumado
e, ohos fechados no silêncio pleno,
tornam-se olfato
todos os sentidos

lembranças de cheiros
numa sequência encadeadas
formam sonhos
indormidos


'
imagem: dama-da-noite
fonte da imagem: http://www.usefilm.com/images/2/7/2/8/2728/698492-medium.jpg