sexta-feira, 13 de julho de 2012

PROUSTIANA




tanto por dizer
e não encontro as rimas

não acerto as assonâncias
soam sempre imperfeitas
minhas sinistras harmonias

estou prestes a desvendar o mistério maior:
o que torna humano os humanos?

mas, desprovida de palavras,
escorre-me por entre os dedos
essa vã sabedoria

como não sei dos sons
meu achado se desfaz
mera sombra
intuição
voo fugaz de borboleta transparente

ah, bem queria capturar o instante
cercá-lo de vidros
reter o tempo em redomas
trocá-las de ordem
inverter, embaralhar os dias
desfazer lembranças em sonhos
tecer de ontem, esperanças...

talvez assim recuperasse
algum gesto, um olhar antigo
uma canção, o cheiro de bolinhos
o som do mar da minha infância



sábado, 2 de junho de 2012

LUA



















viver no mundo da lua
sem peso, sem som, sem dias
viver livre como se cada vida
fosse nada mais que uma rua
sem começo, sem fim, sem esquinas
viver apenas o instante
a reta ou a curva que os passos
traçam, aleatórios, adiante

viver no mundo da lua
sem gravidade, sem quedas
soltar o corpo e o riso
lunaticamente liberto
esparso como pó
pelo universo

segunda-feira, 28 de maio de 2012

ZERO


estreito
a luz é pouca
há neblina
o som tão vago
sem sentido
a voz mais rouca

vertigem, vertigem
abismo infinito
do universo do avesso
ecoa o grito

tudo escuro
muito escuro
sem lado, sem cima, sem baixo
sem antes
nenhum futuro
tempo estático

agora apenas
sempre o mesmo
sem destino
voa a esmo
talvez corpo
talvez pouco
tudo morto