sábado, 22 de agosto de 2009

parca vida

é que nunca se sabe quando e como ela virá

é que, se pudéssemos, bem que escolheríamos
o por do sol, as ondas do mar
o abraço infinito do filho, do amor, do amigo

é que nunca se pensa que ela está aí, sempre à porta
surpresa prevista, vago aceno, ameaça constante
como, onde, que motivo, pouco importa
ela virá sem perguntas, fará absoluto o instante

e tudo o que nos é dado pedir, é que venha calma
que seja serena
sono contínuo, talvez com sonhos
sem dor, sem medo, sem despedida

doce Átropos
que traga um sorriso
enquanto nos corta o fio da vida

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terça-feira, 18 de agosto de 2009

muda



o branco do papel é o dos olhos
cravado em mim como dardos
à espera e à espreita das palavras
que deveriam ter se soltado
da ponta dos dedos ou da mente
ou do coração ou do estômago
palavras com cheiro de corpo
que oferecessem uma rima
uma idéia com sentido ou beleza
a desfazer a brancura
da folha virgem e nua

mas este corpo recluso
recusa-se hoje a falar
fecha-se
e tudo que encontro são rastros
sons amorfos, letras mudas
que não se conectam a nada

minha poesia hoje é calada

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imagem: Blue Nude, Pablo Picasso

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

(sem) tido

dentro dos livros dentro dos olhos no fundo das bocas no canto dos corpos
tanto procurava e procurava
e no meio das palavras perdidas aqui e ali encontrava uma sobra um pedacinho
um quase nada esquecido e desses restos miudinhos ia compondo um som difuso melodia dissonante tecida em travesseiros perdida entre pranto e cobertores
em quiálteras confusos amontoados acordes uns pianíssimos outros fortes
disparatados stravinkys no chão do quarto e da vida espalhados como tinta
como borrões insones amorfos sem sentido
tempo indo escoando escapa
do cenário caótico à ópera bufa tragicomédia absurda
sem script sem diálogos sem anticlímax ou trilha sonora
atores nus espelhados imperfeitos riem-se uns dos outros-si-mesmos
costas tortas barrigas pelos gorduras flácidas e peitos
retalhos de matéria viva desgastada descomposta decomposta
derretendo-se aos olhares fundindo-se em lava viva
buscando loucamente uma saída
pelos vãos estreitos de silêncio entre as palavras
pelos becos hesitantes e suspiros boquiabertos
entre um a e a outra letra na infinitesimal quietude
escondida entre dois pontos qualquer coisa qualquer data
qualquer ilusão de motivo que justifique comédia ou farsa
que permita ao fim do drama uma coda alinhavada

tudo tanto tanto muito mais e mais e tanto ainda...

tudo isso para

nada

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