domingo, 3 de agosto de 2008

Liberta

fonte da imagem:www.webshots.com

Marcia Szajnbok



Que voem livres todas as palavras!
E que encontrem, definitivamente libertas,
Cada qual o destino que lhes cabe:
O ouvido a que por justiça se destinam.
Que se desamarrem os gestos!
Que os olhos chorem até que o pranto acabe!
E que os passos desancorados
Movimentem o corpo em direção às portas abertas.
Que ecoem a voz e o grito,
As canções e os gemidos,
As gargalhadas, as preces...
E que se esgotem as iras
Vinganças e ódios…
Calem-se todas as feridas...
Até que o silencio venha
Pelas mãos do afago e não da mordaça
E uma quietude doce brote da alma
Finalmente expressa
E livre
E calma.




sábado, 2 de agosto de 2008

Soneto

Marcia Szajnbok
Trago hoje plena a alma do sentimento
Que julgava perdido e extraviado.
Deu-me a vida de presente este passado
Bate-me no coração um novo alento.

Entre rugas e fios brancos se perdia
Do corpo a tão querida juventude.
O relógio do espírito vai, amiúde,
Conduzindo o tempo em doce melodia:

Ora lenta e melancólica, envelhece;
Ora enche o espaço alegre e vibrante.
E o que o espelho do corpo transparece

Não é mais que um retrato desse instante:
Mágoa e solidão que lhe abrem a ferida.
O gesto inesperado recupera a vida.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Anjos


Marcia Szajnbok


Sussurra o anjo:
- Olha! Ouve!
E o olhar pousa obediente e a escuta de uma voz se faz...

A vida passa, estranha e imprevista
Destino e desejo se compõem
Tecem juntos ímpares figuras
Tingem os dias, fabricam o tempo...
O encontro mais improvável
Na mais banal das esquinas do espaço
O instante fortuito que produz revolução
E no mesmo gesto instaura a paz...

Sussurra o anjo:
- Ama!
E o coração bate tão forte que acorda o mundo...

A realidade é conforme os olhos
Corpo e alma, sensação e pensamento
Vagando, qual fantasmas, existentes e etéreos...
Um sorriso, um beijo, o gesto simples
Que faz receber a mão, outra mão...
Numa faísca se produz um ser:
O que era puro ideal, suposição
Faz-se matéria num segundo.

Sussurra o anjo:
- Vem comigo!
E o coração pára, o olhar se apaga, cessa todo o movimento...

No instante último há de aparecer o sentido
O divisor de águas entre o mero passar e o real existir...
Recebe a morte em paz
Aquele que soube viver e dar-se...
Desfaz-se o corpo, viaja a alma
Mantêm-se eternas as sementes
De amor salpicadas no infinito.


Imagem: Asas de Anjo, de Miguel Claro
fonte da imagem: http://artedemiguel.home.sapo.pt/quadro%20asas%20de%20anjo.jpg