terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Queridos leitores do PoeticaMente
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Há muito pensava em, de algum modo, tornar públicos meus escritos. Este canal democrático que é a internet me permitiu pôr em marcha esse desejo. Escrevo porque gosto, porque acho que as palavras são seres um pouco mágicos, como elfos ou gnomos que, apesar da invisibilidade, são muito poderosos, dizem... As palavras são nossa marca registrada, são a assinatura do humano. Brincar com elas, apropriar-me delas para criar efeitos de sonoridade e sentido é algo que me diverte e, espero, possa por vezes agradar a alguns leitores.
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Hoje decidi não postar texto meu. Optei por fechar o ano com uma dessas mensagens que se podem ler muitas vezes, pois têm o poder de sempre deixar algo novo na alma que a recebe. Pelas palavras de Drummond, deixo meu agradecimento a todos que frequentaram o blog, ou que vieram parar aqui por acaso e se dispuseram a gastar uns minutinhos para ver o que estava escrito.
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Durante o mês de janeiro, farei um recesso. Convido-os a relerem o que gostaram, a comentar o que acharem cabível, a criticar o que lhes parecer pertinente. Em fevereiro retomarei as postagens sistemáticas, e espero sempre por seu retorno a esta página.
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Que saibamos fazer, cada um de nós e todos, um Ano Novo de fato novo!
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Grande abraço.
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Marcia Szajnbok
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Receita de Ano Novo


Carlos Drummond de Andrade

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens? passa telegramas?)

Não precisa fazer lista de boas intenções para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo,
eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
`

sábado, 27 de dezembro de 2008

imperativos contemporâneos

não fume
beba pouco
emagreça
não chore
caminhe
relaxe
esqueça o chocolate
trabalhe
produza
tome o remédio
faça exercício
evite desperdício
se aliste
se proteja
ômega três
preservativo
antidepressivo
seja educado (mas não muito)
melhor também não ser muito criativo

comprecomprecomprecomprecompre
com pressa
não meça
o preço
o gasto
melhor o caro do que o maior barato

viva bem
dentro do esperado
do padrão
asséptico
e pasteurizado
não esqueça de pôr na cara
teu melhor sorriso
plastificado

seja feliz!
.................
... como?

`

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Natal do Brasil


O Natal no Brasil não tem neve.


A maioria das nossas crianças não é loira, nem tem olhos azuis.

A maioria das nossas crianças não acredita em milagres de Natal.

Muitas delas não acreditam em nada.

Muitas não têm uma casa, onde Papai Noel poderia chegar.

Outras tantas não têm nem pai de carne e osso.

E, dentre as que têm, há muito mais ossos do que carne nesses pais, e nelas próprias.


O Natal no Brasil não é a decoração da Avenida Paulista.

Nem o brilho dos shoppings.

Nem brinquedos importados.

Nem perus gordos, vinhos, castanhas e uvas.


O Natal do Brasil é só uma esperança.

É um riso de graça ou o brilho no olhar do garoto na esquina quando recebe, de mão anônima, um doce comum, um brinquedo usado, um mimo qualquer.

Um gesto.


O Natal do Brasil não pode estar apenas dentro das nossas casas fartas.


O Natal do Brasil depende das nossas mãos anônimas.



Boas Festas


(Assis Valente)


Anoiteceu, o sino gemeu

E a gente ficou feliz a rezar

Papai Noel, vê se você tem

A felicidade pra você me dar

Eu pensei que todo mundo

Fosse filho de Papai Noel

E assim felicidade

Eu pensei que fosse uma

Brincadeira de papel

Já faz tempo que eu pedi

Mas o meu Papai Noel não vem

Com certeza já morreu

Ou então felicidade

É brinquedo que não tem...
`
Desejo a todos um Feliz Natal!
`

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

caleidoscópio


vermelho verde
flores

azul amarelo
gatos

rosa roxo
pingos

turquesa preto
barcos

verde azul
mares

amarelo preto
laços

vermelho rosa
vinhos

turquesa roxo
arcos

luz e vidro
cacos
cálidos

olhar e fantasia
brilhos
mágicos


'

sábado, 13 de dezembro de 2008

[saudade...]


saudade
um pedaço de mim que ficou para trás
um pedaço de ti que comigo deixaste

um porque sem reposta
um adeus nunca dito
foste embora em silêncio
eu calada fiquei

tanto tempo, meu bem, tanto tempo...

a saudade é a semente
que brotou de repente
a saudade é o laço
que me deu teu abraço
que juntou num inteiro
o que era pedaço

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

círculos


vai a pedra n’água

ondulatória criando
círculos mágicos
que se reproduzem
concêntricos
vão agitando
a superfície do lago
antes plácido...

mas não há física
que explique
as ondas de sentimento
que do fundo da alma
de outros mundos
de outros tempos
me vêm à boca
me vêm aos olhos
me afogam numas lembranças...

umas alegres
me trazem musica
calor, abraço
saudade boa de tempos doces
risos
crianças

outras tão tristes
que me perseguem
que sempre insistem
e abrem o solo
ante meus pés
num repetir-se
de quase passo
à beira de escuro abismo...

não te quero!
vai-te embora
dor mortífera e obsessiva!

me quero rubra
me quero leve
me quero luz, cor e calor

me quero por um instante
infinitamente viva!

'

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

idas vindas


hora
passa o agora
amanhã já é hoje
e ontem num instante
foi-se embora

vida
cicatriza a ferida
põe em todo encontro
o acorde dissonante
da partida



imagem: Pôr do Sol em Juquehy, Marcia Szajnbok

sábado, 6 de dezembro de 2008

indriso


devia ter sempre tons suaves a aquarela
em que retratava-me em teus olhos
devia ser em tons de azul, lilás ou rosa

a claridade que entraria da janela
e numa aura transparente me verias
e qual barco indo à deriva chegaria

perto do teu coração com minha vela

e nunca mais de solidão tu sofrerias

`

imagem: Aquarela do francês Debret, pintada em 1826 ou 1827, mostra São José da Terra Firme a partir da fragata de Dom Pedro 1o; a obra integra o acervo do Iphan/Museus Prestes Maia. FOTO REPRODUÇÃO

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Ícaro


vai alto meu olhar
cai bem no céu de nuvens
o coração está calmo
- vôo...

há em mim um sentir plácido
um saber atemporal
que recria o meu melhor
- subo...

deve ser divina a possibilidade
do dar sem se perder
o amor quer sempre espaço
- migro...

mas a realidade escura
derrete-me as asas de cera
e, estatelada, desperto
- só...


'

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Diferenças

diferenças não são o fim
antes, o início, o que atrai,
a chama...

diferente é todo o não-eu que me circunda
e que observo, perplexa ou curiosa
diferente é o que não conheço
diferente é minha imagem no espelho
o isômero enantiomorfo imperfeito
sou eu mesma pelo avesso

diferente é o que quero, o que me encanta
amar o igual não é amar, é amar-se...
amar o diferente é expulsar narciso
e, mesmo que por momentânea entrega,
ver o mundo por diversos olhos...

por um instante desapareço
e desse encontro mágico retorno
mais feliz
e mais do que nunca consciente
de quem sou
e do que posso...

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Soneto


gosto de pensar que sou um ser aquático
que nasceu em terra firme por engano
e que um dia cada pedaço do que sou
retornará ao seu lugar, que é o oceano

gosto de supor que dentro de mim exista
uma concha, um caramujo, algum coral
e que este sangue que tenho hoje vermelho
ficará um dia transparente, só água e sal

é um conforto imaginar-me assim
percorrendo mares, levada nas correntes
na espuma branca das ondas, diluída

no ilimitado das águas encontrarei enfim
a profundeza inusitada e azul da liberdade
que tanto persegui por toda vida
`

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

poexistência

há mesmo um certo esforço
nesta prática de transformar
plavras ásperas em versos doces
idéias soltas num conjunto
com sequência
com sentido
com sonoridade
que toque ao mesmo tempo
o coração e o ouvido

fazer poesia é como viver:

está-se sempre tentando
pôr contornos ritmados
no que eternamente vasa
num murmurar
subvertido

pôr um acorde de conforto
no que sempre faz
dissonância
pé quebrado
e ruído

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Indriso


se justo agora alguém me perguntasse
da vida o que eu mais queria
- ser feliz apenas, lhe diria

andar na praia, sentir a areia, ouvir o mar...

viria, então, a próxima pergunta:
tão pouco? tão só-isso? nada mais?
- sim, só isso, doce amigo

que já é bom ter-te aqui comigo, partilhando minha paz...
'

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

[há uma dor que é água...]


há uma dor que é água

fluida, ela espalha
se enfia em cada canto
em cada fresta
atrás de toda alegria tola
por baixo de todo riso

é uma água escura
mas mesmo assim
é água pura

é preciso deixá-la entrar
escorrer, percorrer, lavar

é preciso deixá-la inundar
incorporá-la pela pele
em cada célula

que ela seja o solvente
que dilui todo o resto
de outras dores e temores
até que, finalmente
na enxurrada algo se perca
algo se lave
de algo se livre
definitivamente


'


sexta-feira, 14 de novembro de 2008

interiores

dentro da casa escura
uma solidão com forma humana

dentro do olhar parado
um coração desenganado

dentro do mal avança
a total desesperança

dentro do corpo inerte
uma célula subverte

dentro de si encerra
a mais sangrenta guerra

dentro da luz se solta
num caminho que não tem volta

dissolvido no mar termina
o seu sonho de menina
`

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

esses


sou sem ser
só,
sonho: sendo

seria simples sobreviver
sem sintaxes
sem segredos

sentimentos
sem sentido
são
sortilégios
sorrateiros

(esses esses
excessivos
sussurram
nos meus ouvidos
o dia inteiro!)

sons suspensos
outros submersos
surpreendem
nos meus versos

sílabas são peças
do meu quebra-cabeças-universo

'


'

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

entre

mundo binário
não impera
ou sim
jamais talvez
nem ao contrário

se não preto
então branco

(no céu vejo azul: espanto!)

entre tanto cinza
qual o claro
qual escuro?
não sei bem
se bem mal faço
ou faço mal
o bem que procuro

se não amor
ódio
se não santa
puta
se não falo
castro ou calo?

(já ninguém me escuta!)

'

domingo, 9 de novembro de 2008

Diálogos Poéticos: Caetano com Decio


Caetano Veloso


Língua



Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar a criar confusões de prosódias
E uma profusão de paródias que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior
E deixe os portugais morrerem à míngua
“Minha pátria é minha língua" Fala Mangueira! Fala!
Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó
O que quer o que pode essa língua?
Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas
E o falso inglês relax dos surfistas
Sejamos imperialistas
Vamos na velô da dicção choo choo de Carmem Miranda
E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate
E - xeque-mate - explique-nos Luanda
Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo
Sejamos o lobo do lobo do homem
Adoro nomes, nomes em Ã
De coisas como Rã e Imã
Nomes de nomes
Como Scarlet Moon de Chevalier
Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé e Maria da Fé e Arrigo Barnabé
Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó
O que quer o que pode essa língua?
Incrivel! É melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível filosofar em alemão
Se você tem uma idéia incrível é melhor fazer uma canção
Está provado que só é possível filosofar em alemão
Blitz quer dizer corisco, Hollywood quer dizer Azevedo
E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o Recôncavo meu medo!
A língua é minha pátria e eu não tenho pátria: tenho mátria
E quero frátria
Poesia concreta, prosa caótica
Ótica futura
Samba-rap, chic-left com banana
Será que ela está no Pão de Açúcar?

Tá craude brô você e tu lhe amo
Qué queu te faço, nego?
Bote ligeiro
Nós canto-falamos como quem inveja negros
Que sofrem horrores no gueto do Harlem
Livros, discos, vídeos à mancheia
E deixa que digam, que pensem, que falem



Decio Pignatari


O Lobisomem


O amor é para mim um Iroquês
De cor amarela e feroz catadura
Que vem sempre a galope, montado
Numa égua chamada Tristeza.
Ai, Tristeza tem cascos de ferro
E as esporas de estranho metal
Cor de vinho, de sangue, e de morte,
Um metal parecido com ciúme.

(O Iroquês sabe há muito o caminho e o lugar
Onde estou à mercê:
É uma estrada asfaltada, tão solitária quanto escura,
Passando por entre uns arvoredos colossais
Que abrem lá em cima suas enormes bocas de silêncio e solidão).

Outro dia eu senti um ladrido
De concreto batendo nos cascos:
Era o meu Iroquês que chegava
No seu gesto de anti-Quixote.
Vinha grande, vestido de nada
Me empolgou corações e cabelos
Estreitou as artérias nas mãos
E arrancou minha pele sem sangue
E partiu encoberto com ela
Atirando-me os poros na cara.
E eu parti travestido de Dor,
Dor roubada da placa da rua
Ululando que o vento parasse
De açoitar minha pele de nervos.
Veio o frio com olhos de brasa
Jogou olhos em todo o meu corpo;
Encontrei uma moça na rua,
Implorei que me desse sua pele
E ela disse, chorando de mágua,
Que era mãe, tinha seios repletos
E a filhinha não gosta de nervos;
Encontrei um mendigo na rua
Moribundo de fome e de frio:
“Dá-me a pele, mendigo inocente,
Antes que Ela te venha buscar.”
Respondeu carregado por Ela:
“Me devolves no Juízo Final?”
Encontrei um cachorro na rua:
“Ó cachorro, me cedes tua pele?”
E ele, ingênuo, deixando a cadela
Arrancou a epiderme com sangue
Toda quente de pêlos malhados
E se foi para os campos da lua
Desvestido da própria nudez
Implorando a epiderme da lua.
Fui então fantasiado a travesti
Arrojado na escala do mundo
E não houve lugar para mim.

Não sou cão, não sou gente - sou Eu.

Iroquês, Iroquês, que fizeste?


***

ra terra ter
rat erra ter
rate rra ter
rater ra ter
raterra terr
araterra ter
raraterra te
rraraterra t
erraraterra
terraraterra


***


caviar o prazer
prazer o porvir
porvir o torpor
contemporalizar

abrir as portas
abrir as pernas
abrir os corpos
`
imagem montada a partir das fontes: http://lh6.ggpht.com/_TWs4oAmD4MA/SLcOmYd9MKI/AAAAAAAAAMc/2NLjD9c3W0I/decio_piganatari.jpg

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

indriso


Marcia Szajnbok


há uma aranha em mim que tece sonhos

polimericamente crescem os fios
entrelaçam, recobrem, enredam
a mosca desatenta que se encanta

e poliquimericamente se entrega
se entrelaça, se esconde, se enreda
até que perde a saída, e lá estou

eu mesma, a mosca pelo sonho digerida

`

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

é bom...

banho de banheira
Debussy ao piano
chocolate meio-amargo
ler a noite inteira

comer pastel de queijo
um bom livro de poesia
champagne ou vinho tinto
beijo

andar descalça na praia
sem ter pressa nem rumo
catando conchas feito criança

ao som ritmado do mar
fechar os olhos, abrir os braços
soltar o corpo numa dança
'

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Amanda


Marcia Szajnbok


Amanda
Sim, que é tão amada
Que sente tanto
E pensa muito
E sabe sempre
Como a vida
É complicada...

Ah, Amanda
Sim, que é tão linda
Esses seus olhos
De expressão pura
E em teu sorriso
A alegria infinda
A franqueza leve
De quem crê, ainda...

Minha Amanda
Minha menina
Já não criança
Tanto me ensina
Tanto me toca
Toda emoção
Por mais que esconda
Por mais que finja
Ah, como é grande
Teu coração!

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Indriso

Marcia Szajnbok


e se estivesse aberto o quarto
se de areia fosse o leito
e, sem lâmpadas, luz de estrelas

e se de te amar ficasses farto
se de me amar ficasses satisfeito
se dançássemos ao som do mar

bem podia o mundo então ficar estático

bem podia a vida então eternizar
'

sábado, 1 de novembro de 2008

[assim escrevo...]

Marcia Szajnbok

assim escrevo:
solto as mãos
no teclado, no papel
tanto faz
lápis, caneta
guardanapo, saco de padaria...
e são os dedos que inventam
que empilham as palavras
elas vêm, automáticas
passam por mim à revelia...
e quando, depois de feito,
procuro um significado,
sempre me encontro
nua
no leito
desse universo de mim
inventado...

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

duplos

Marcia Szajnbok

ah, essa minha alma inquieta...
muda o instante, tem já outra meta!

ah, esse meu sonho de liberdade...
o que mais aprisiona é amor ou saudade?

caminho, caminho, e vem junto a tristeza...
mas se um pássaro canta, reencontro a leveza!

num momento mergulho, pura melancolia...
noutro transformo essa dor em poesia!

que ser estranho sou eu, que ora foge, ora busca?
que luz é essa que quero, que me ilumina e ofusca?

em corda bamba vacilo, entre a entrega e o segredo...
em que braços hei de lançar-me, em salto mortal, sem medo?

`

imagem: M.C.Escher, Birds


quarta-feira, 29 de outubro de 2008

[há cores...]


Marcia Szajnbok
há cores
sinto-as permeando-me os tecidos
sofro-as quando, transparente,
reencontro no mundo meus sonhos esquecidos...

há sons
ouço a música que meu corpo exala
espalho-a, liberto-a de mim, ressôo
contamino com ela quem meu perfume inala...

há toques
suavizam-me o corpo os teus abraços
me aqueces, te embalo
unificadas, as superfícies fazem laços...

há vida
algo pulsa, flui-me o sangue em movimento
sorvo-te, sopras-me
põe comigo mais uma luz no firmamento...
'

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Amor III


Marcia Szajnbok


Qual é do amor a essência mesma
Senão a brevidade com que o vento toca a pétala?

Ou o átimo que dura a nota,
E magicamente gera no espírito toda a emoção da música?

Ama-se sempre eternamente...
Mas a eternidade do amor não se mede em unidade de tempo...

Há as marcas... há as lembranças...
A infinita alegria de saber-se triste pelo irrecuperável,
Pelo perdido ou passado que jamais nos deixa...

Mais nada, pura miragem
Oásis imaginário no deserto do cotidiano,
Que estranhamente sempre nos deixa os pés molhados...

'fonte da imagem: http://blog.uncovering.org/archives/2006/09/imagens_magicas.html

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

nós




marcia szajnbok




não me perca

não me deixe
escorrer-te pelos dedos
me segure, me retenha

me seduza, me conquiste
seja a vírgula, seja o ponto
me ame, me ate, me capte

não permita que eu
- mais uma vez -
escape…


fonte da imagem:http://josegoncalez.files.wordpress.com/2007/11/gaivotas.jpg



quinta-feira, 23 de outubro de 2008

vácuos




Marcia Szajnbok




não há nada de azul no céu
but seeing the skies of blue
enche meu coração de alegria…

nem há nuvens brancas planando
mas, sem suas formas mutantes
por onde o pássaro errante
se orientaria?

a estrela que vejo já morreu
mas seu brilho continua
por anos-luz vagando, intenso...

e numa tela percorro em segundos
o azul virtual mundoearth
que já não é mais tão imenso...

há tanto que não se vê!
tanto existe que não se toca!
há tanta vida no que é palavra
no que o vento leva
no que o tempo corta...

há tanto que existe
no que não existe
para quem, cego, insiste
em só crer no que pode olhar!

há tanto que faz efeito
mesmo não sendo perfeito
para quem sabe exergar...


'
imagem: Golden Bubbles, Mandelbrot Bubble Fractal
fonte da imagem: www.fantastic-fractals.com/

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Soneto


Marcia Szajnbok


Não quero conhecer de ti só teu melhor
Quero também aquilo de que não gostas
O que tens como mau, vergonhoso, triste
Quero que me ofereças até que saiba décor

A melancolia que tantas vezes te habita,
Quero-te nos teus dias maus, de frio, de baixa
Quero te amar além do que é terno e doce
Quero pôr à prova minha vontade infinita

De trazer à luz meus melhores devaneios
Pois, do modo como te amo, meu amor,
O que tenho em mim de calor basta

Para extinguir para sempre teus receios
Derreter até a última gota do teu gelo
E estreitar a distância que te afasta...

`

[Imagem: Amanda Szajnbok de Faria, Luz e Sombra]

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Paisagem Marinha III


Marcia Szajnbok




Pés descalços
Areia e água sob minha pele
Sigo a orla tortuosa
Sem meta, porto, ou quem quer que me espere...

Distante de toda voz humana
Só o mar sussurra segredos...
Por vezes o ritmo perfeito
Se interrompe de repente
Quando a onda atinge a pedra
Sem delicadeza...

Nesse momento
Meu coração ecoa, arrítmico,
A surpresa...

Arregalo os olhos para que a luz me inebrie:
A tendresse rósea das manhãs,
O amarelo-dourado dos poentes...

À noite, o paradoxo claroescuro do luar
Torna-me a pele ainda mais branca
Quase exangue ou transparente...

Sorvo todo esse vinho
Que vem do céu escuro, das estrelas, do infinito...
Vinho tinto e encorpado com sabor de céu estrelado...
Seu efeito de euforia e calma
Todo meu corpo o sente...

Ouço musica
De algum ponto emana vago piano...
Fragmentos de conversas, vozes de algum tempo...
Sons de festa, choros, risos de crianças, cantiguinhas:
Lá em cima do piano tem um copo de veneno...
Quero prová-lo, esse vinho envenenado
Que já assassinou reis e rainhas...

Volátil, com ele evaporo
Me desfaço, desapareço...
Vejo-me, nesse momento, sobre as ondas, um reflexo:
Apenas mais uma entre a multidão de inominadas estrelas...

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Ecdise

Marcia Szajnbok
`
Abriu os olhos e iniciou a contagem regressiva: 30, 29, 28... Quando pensou – “zero!” – o despertador tocou. Sorriu, orgulhoso da própria precisão. Tomou a agenda, já aberta na data correta sobre o criado-mudo, marcou a lápis um pontinho e, no canto da página, contabilizou 1567: um mil e quinhentos e sessenta e sete dias - há quase cinco anos, seu relógio biológico mantinha-se absolutamente exato!
Sem acender as luzes, pegou roupas limpas. A monotonia dispensava iluminação: todas as camisas eram brancas, todas as cuecas cor da pele, as calças e as meias eram pretas, sem detalhes. O café da manhã tampouco comportava surpresas. A mesa já ficava sempre pronta na noite anterior, a torradeira a postos, café-com-leite, pão e manteiga.
O percurso de casa ao trabalho era sempre feito a pé. Da porta do apartamento ao elevador do prédio de escritórios, 648 passos. Divertia-se em fechar os olhos em alguns trechos do caminho e, apenas pelo controle numérico, adivinhar onde estava. “Bingo!”, festejava consigo mesmo sempre que acertava. E acertava sempre. Por isso, aquela manhã de quarta-feira foi um verdadeiro divisor de águas em sua vida matematicamente controlada.
Após atravessar a avenida, deveria seguir 44 passos e então virar à direita. Decidiu fazer ali a brincadeira dos olhos fechados. Foi seguindo, firme e convicto, 43, 44... e bateu de cara num obstáculo! Demorou alguns segundos para compreender que aquilo era um tapume. Surgido da noite para o dia, fechava o acesso à rua onde trabalhava. Destacado do fundo roxo e preto, o aviso amarelo ordenava “Desvio”, a seta autoritária apontando para a esquerda.
Atônito, não se movia. Estava ali, mergulhado no próprio desamparo, quando ouviu a risada. Bem a seu lado estava a moça, rindo. Como jamais falava com estranhos, apenas dirigiu a ela um olhar interrogador: está rindo do quê? E ela, que falava muito, e sempre, até mesmo quando não tinha interlocutor, foi respondendo à questão não proferida:
- Machucou? A gente tem que tomar cuidado. Nesta cidade todo dia aparece um buraco novo, ou um poste, ou um muro. Outro dia, eu estava indo para casa e...
Sem conseguir prestar atenção a tudo o que ela dizia, foi se deixando levar apenas pelo tom de sua voz melodiosa e alegre. Era uma moça bonita, morena, esguia, os olhos transbordavam expressão.
- Você vai ficar aí parado? Vem, vamos tomar um café.
E ele foi. Sem contar os passos, sem saber exatamente para onde, deixou-se ir com ela. As palavras lhe escapavam. O que o mantinha como que hipnotizado eram os movimentos. Ela andava gingando o quadril, movia as mãos enfatizando as frases, arregalava os olhos, jogava o cabelo para trás com um movimento serpenteante do pescoço. Estava impressionado com aquele corpo – tudo nele comunicava.
No balcão da padaria, ela pediu: dois cafés. Puros? Sim, puros. E ele apenas assistiu à cena, esquecido por um momento de que, até então, sempre pedia um pingado. Saboreou o amargo da bebida quente, e o cheiro que subia da xícara misturou-se ao perfume da moça e ao aroma de pão recém assado.
Talvez tenha sido o excesso de cafeína e de olfato, talvez o exagero de expressividade que emanava daquela moça, ou o burburinho emocional que o invadia naquela manhã atípica. O mal-estar surgiu de repente. Começou a suar frio, esfregava as mãos procurando a porta com o olhar. Tinha ímpetos de sair correndo, mas achava que, se levantasse, iria desmaiar. Uma espécie de formigamento percorria-lhe todo o corpo. Tentava se concentrar: não perca o controle, não perca o controle... O estômago se contorcia, o mundo todo girava. Não conseguiu evitar. O vômito veio num jato. Sujou os próprios sapatos, o balcão da padaria, os pés da moça. Todos os olhares, enojados, reprovavam-lhe severamente aquele ato. Tinha ganas de gritar, de justificar, de explicar que não fizera aquilo de propósito, que sentia muito, que nunca passara por uma situação como aquela...
Nunca passara por uma situação como aquela. Esse pensamento reverberava Via-se menino comportado, adolescente contido, adulto regrado. Sempre tivera o esmero de manter tudo em ordem, a casa, o armário, os estudos, a vida. E agora, isto! De que adiantara tanto esforço? Para que servira ter aberto mão de tanta coisa? Dietas balanceadas mesmo diante do sorvete mais apetitoso, a recusa automática a todos os desafios que lhe haviam proposto, a pontualidade levada germanicamente a sério. Nenhum amigo íntimo demais, não se pode confiar muito nas pessoas. Nenhum enamoramento, a paixão nos desvia do bom equilíbrio. Nenhuma explosão de ira, a violência nos aproxima dos seres irracionais. Nunca passara por uma situação como aquela. De fato, nunca passara por situação nenhuma. E agora, toda a assepsia da vida parecia ter ido por água abaixo, mergulhada no mais prosaico dos produtos que um corpo humano pode produzir.
Foi, novamente, o riso da moça que o acudiu.
- Ressaca em plena quarta-feira? Mal, hein?!
Conduzido por ela, entrou no cubículo escuro e malcheiroso que era o banheiro da padaria. Havia apenas o vaso sanitário e uma pia minúscula, sem sabonete, papel higiênico ou toalhas. Abriu ao máximo a torneira, esperando um jato de onde só saía um filete de água. Precisava apenas lavar a boca, mas tinha necessidade de limpar-se por inteiro. Começou pelo rosto e cabelo. Depois, tirou a camisa e jogou água fria no peito. Mecanicamente, foi se despindo por completo, molhando todo o corpo. Comprazia-se da sensação provocada pela água escorrendo sobre a pele. Aquela limpeza sem sabão lembrava mais um batismo que um banho. Tremia, um pouco de frio, um pouco não sabia do quê.
Do lado de fora, a moça se impacientava. Bateu e, sem esperar resposta, entreabriu a porta. Quando deu com o homem nu, arregalou um pouco os olhos, sorriu maliciosamente e entrou. Antes que ele tivesse tempo de dizer ou fazer qualquer coisa, a moça já havia levantado a saia, tirado as roupas de baixo, e se pendurado em seu pescoço, enlaçando-o com as pernas pelo quadril. A cena insólita era bonita: um casal jovem, amando-se assim, de improviso, em pé, como bichos. Pareciam se conhecer de longa data, tanto que os gestos se entendiam. Não havia lugar para palavras. Apenas movimentos, toques, sensações. Ao final, ainda ficaram ali abraçados, conectados um ao outro, em silêncio, tentando, cada um, reter no próprio corpo a memória do gozo do outro.
Foi ela, novamente, que pôs a vida em marcha.
- Melhor você se recompor. Quase num movimento único, vestiu-se, beijou-lhe de leve o rosto, e saiu.
Menos de cinco minutos depois, também ele retornava ao mundo real. Não deu muita importância aos risinhos de canto e aos olhares divertidos que trocavam os funcionários da padaria. Procurou-a junto ao balcão, na calçada, do outro lado da rua. Nada. Desaparecera no meio da correnteza humana que se deslocava pela avenida no meio da manhã. Pensou que estava bem atrasado para o trabalho, e que nunca antes havia faltado a nenhum compromisso profissional. No céu azul, nenhuma nuvem. Deixou-se ir, anônimo no meio da turba, sem saber exatamente para onde os passos o levariam. Viu-se refletido na vitrine de uma loja. Diante da estranha sensação de reconhecimento e perplexidade, sentiu vontade de rir. De início, até procurou conter-se, mas depois deixou o riso vir. Veio tímido, depois foi crescendo, explodiu numa crise de gargalhadas, daquelas que fazem os olhos se encherem de lágrimas. Os passantes olhavam, curiosos, e quanto mais se via observado, mais gargalhava. O dia estava lindo. Queria caminhar. Estava livre, e naquele instante lhe bastava isso: caminhar e sentir o calor do sol.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

vendaval


marcia szajnbok


mais mais mais
e tanto e com tal fúria
que tudo varre
tudo leva derruba arrasa
um vento um sopro
que devasta
em rodopio minha vida arrasta
e cega da poeira e do cansaço
rarefeito meu corpo
sou pedaço
não caminho
sou levada
solta e a cada passo
um tropeço
num soluço
a solução que já não busco
sou apenas
sem adjetivo e advérbio
sem mais nada
matéria pura
nua

tua

no meio do caos urbano
minúsculo
inseto transparente
que esvoaça
em plena rua

`

terça-feira, 14 de outubro de 2008

náufrago


marcia szajnbok


náufrago
era preciso que se agarrasse
a qualquer pedra, ou planta, ou alga
que alcançasse, com o pé, apoio
um só ponto que fosse
ou que enchesse de ar o peito
até se tornar, ele próprio, bóia...

era preciso que houvesse algo
era imperativo que achasse
a pedra, a planta, o apoio
era ugente que se lembrasse
ao menos, de respirar...

sem saber como ir para cima ou para baixo
sem saber onde o sul, onde o norte
por momentos fechava os olhos, entorpecido,
imaginava-se em doces braços amorosos...

porque quando vinham as enormes vagas
e o escuro do céu sem luar e sem estrelas
se confundia com o escuro da profundeza infinita
- do mar, de si mesmo, de tudo -
era preciso, antes, acreditar...

a água lhe congelava as entranhas
já não sentia dor, nem frio, nem medo
bastava deixar-se ir ao sabor das correntes
a alma presa ao corpo por fio tão tênue...

náufrago
num momento qualquer, se decidiu
num momento sem importância
sem marca, sem sentido
num instante comum
- pudera ser outro -
deixou-se, simplesmente, ir com as águas
deixou-se...

seu corpo-água se desfazendo
os pensamentos-água desintegrando
os sentimentos-água se diluindo
naquele mar de corações
salgados
afogados
retorcidos...

náufrago e mar
um só
para sempre
unidos...
'

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

mortevida


marcia szajnbok


vivo
vejo
vivos mortos
mortos vivos
quase mortos ainda vivos
pouco vivos quase mortos

no silêncio
morro

diante do absoluto
abre-se o leque das infinitas possibilidades
diante do emudecido
fecha-se a porta das mentiras e verdades



imagem: Alex Cerveny, sem título

fonte da imagem:http://diversao.uol.com.br/album/alex_cerveny_album.jhtm

domingo, 12 de outubro de 2008

Diálogos Poéticos: Machado com Florbela


SONHOS

Oh! si elle m'eût aimé!
A. De Vigny

Se ela soubesse por que tremo às vezes
Como um junco nas bordas de um regato;
E àquele olhar de uma volúpia ardente
Fecho os meus pobres olhos de insensato.

Se ela soubesse por que a mão convulsa
Sinto ao pousar em um adeus a sua;
E por que um riso de amargura e tédio
Pousa-me no calor da face nua;

Quem sabe se piedosa, no silêncio,
Em oração, à noite, me alembrara;
E por mim em meu êxtase querido
Uma furtiva lágrima soltara!

Quem sabe, se amorosa, pensativa,
Amadornada em lânguidos desejos,
Viria compulsar-me o livro d'alma
E minha fronte batizar de beijos...

E saberia então que de soluços
Os lábios me entreabrem de paixão!
Que de prantos resvalam de meus olhos,
Com o orvalho de minha solidão!

Veria que este fogo de meus versos
É a febre de amor de meus suspiros,
Onde me vai a flor da mocidade
Como flor que enlanguece nos retiros.

Mas... são sonhos, meu Deus! estes tormentos
Irão comigo resvalar na cova;
E serão o crisol de meu espírito
Quando passar a uma existência nova.

Sonhos de insensatez! delírio apenas!
Cresceu em alta rocha a flor querida;
Verme rasteiro tateando os ermos
Não beberei naquele seio — a vida!

Passarei como sombra ante os seus olhos.
Frios, sem eco — soarão meus cantos;
E aqueles olhos que eu amei, calado
Não me hão de as cinzas orvalhar com prantos!

E nos silêncios de uma noite límpida
Sobre a campa que me há de enfim cobrir.
Da flor daqueles lábios — uma reza
Como um perfume não virá cair!

Devanear eterno! o amor de louco
Hei-de fechá-lo na mudez do peito...
Vem tu, apenas, lânguida saudade,
Noiva dos ermos — partilhar meu leito!

[Machado de Assis]


FLOR DO SONHO

A Flor do Sonho, alvíssima, divina,
Miraculosamente abriu em mim,
Como se uma magnólia de cetim
Fosse florir num muro todo em ruína.

Pende em meu seio a haste branda e fina
E não posso entender como é que, enfim,
Essa tão rara flor abriu assim!
...Milagre... fantasia... ou, talvez, sina...

Ó flor que em mim nasceste sem abrolhos,
Que tem que sejam tristes os meus olhos
Se eles são tristes pelo amor de ti?!...

Desde que em mim nasceste em noite calma,
Voou ao longe a asa da minh'alma
E nunca, nunca mais eu me entendi...

[Florbela Espanca]


Fonte das imagens: http://www.monsores.net/blog/wp-content/uploads/2008/06/florbela-espanca.jpg
http://www.senado.gov.br/comunica/historia/imagens/machassis.jpg

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

soneto do tempo que passa


marcia szajnbok


mais me toma a perplexidade
a cada novo dia que vivo
um sopro em momento furtivo
...vai-se o cristal da felicidade

o que era para ser eterno
desfaz-se no ar em fumaça
e tempo é barco que passa
conduzindo ao paraíso ou inferno

há séculos separando
a imagem que vejo no espelho
e a cronologia da idade

alma e corpo se descolando
é marca de que se está velho
ou porta para a liberdade...


quarta-feira, 8 de outubro de 2008

microscopia


marcia szajnbok


punha- me no microscópio
a ver de que matéria era feita:
órgãos, tecidos, células
organelas, membranas
genes, moléculas
átomos, partículas
simples cargas elétricas...

no fim, grandes vazios
permeando
a pouca substância

no fim, no corpo e na mente
a constatação de que somos
simplesmente
um pouco de nada
revestido de pouco
que, à distância,
só engana o olhar do outro
provisoriamente...


imagem: Purkinje CellsLudovic Collins, confocal micrographWellcome Biomedical Image Awards 2006

terça-feira, 7 de outubro de 2008

[gosto de ver o outro lado das coisas...]


marcia szajnbok


gosto de ver o outro lado das coisas
o que há além
por trás
embaixo
o que escondem, seu avesso
pois nada é como parece, nada é fixo
tudo sempre espalha
como líquido
que deixa um rastro:
o molhado, sua marca -
mas não se captura
em vão, alguém tenta retê-lo
mas ele sempre
escorre ou evapora
- escapa.

.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

vertigem


marcia szajnbok

só,
a ponto de falar com os retratos
só,
de não se achar no mundo vasto
só de tudo
sem ninguém
só seu corpo
numa escada
espiralada
que só desce
para o nada

'

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Amor II


Marcia Szajnbok


Sempre adorei caleidoscópios...
Simples cacos de vidro colorido
Compondo e recompondo imagens infinitas
Irreprodutíveis formas
Minúsculos vitrais vivos...
Como o vento em dunas,
Como ondas no rochedo:
Sempre o mesmo e o eterno diferente...
Mera ilusão de similitude
Tola miragem tecida na distância
Que se desfaz quando a vista pousa e o coração toca
No que é agora sem jamais ter sido,
E nem tem a possibilidade de vir a ser novamente...
'
O amor é tal sussurro que recobre o intante,
E pára o tempo.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

mitos

Marcia Szajnbok

penso às vezes que não vivo
que isto que suponho vida
é, de fato, o sonho de alguém
que um dia vai despertar
e, nesse instante, me desfarei...

penso nisso desde menina!
imaginava haver outro mundo
e nesse mundo, outra de mim
e me perguntava como seria
se essa minha cópia cósmica
um dia me aparecesse
e eu comigo me confundisse
e depois já não soubesse
a qual mundo pertencia...

idéias de criança
que gente grande acalenta
um jeito que a cabeça inventa
para diminuir a dor e a consciência
do quanto a vida é sem consistência...

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

primavera

Marcia Szajnbok
e, de repente, numa manhã qualquer
o coração desperta leve
misteriosamente
sem tristeza
sem desesperança

até ontem, a alma cativa
de um não-sei-quê escuro e opaco,
não supunha sequer
este fluir de sorriso e canto
que magicamente
agora avança

uma noite sem sonhos
nenhuma efeméride
nada...
a quietude vem da ausência da dor...
feliz, respira a alma aliviada
sossegadamente
a paz da aurora mansa

tons de rosa e lilás tingidos
por azul e alaranjado
uma frescura de ar puro e perfumado
preenche cada poro, cada medo
até que o corpo inteiro vire
completamente
um buquê de flor que ao mar se lança...


'
[para entrar no clima, nada melhor do que Tim Maia... http://www.youtube.com/watch?v=sfGQNHu-FNE]

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Carta de Amor

Marcia Szajnbok

Queria te escrever uma carta
Que não fosse de despedida
Que, antes, fosse mesmo de chegada,
De começo, de ponto de partida,
Onde eu pudesse, amigo, te propor
Este meu jeito estranho de definir amor:

Norte na bússola dos sentimentos,
Referência a cada um desses momentos
Em que alguém se sente engolfado pelo vendaval dos acasos...

Companhia doce, terna, absolutamente especial
Nas cotidianas banalidades que chamamos vida-real
Alegres champanhes, ternos abraços, tristes silêncios...

Um tanto de desejo, de suave intimidade
Construída sobre o sólido pilar da liberdade:
A confiança absoluta em si mesmo e no outro
A ponto de não se preocupar se é muito ou pouco...

Grandeza sem medida, sem espaço ou tempo
Que no instante derradeiro, na presença clara da morte,
Nos sirva de conforto, justificativa e alento...

É tênue a fronteira entre amor e amizade,
Mera linha pontilhada feita de fumaça
Que esmaece tanto mais quanto mais o tempo passa...

Sentimento sem nome, toca o real
Sentimento sem tempo, portanto eterno
Nem grande nem pequeno, já que absoluto...

(Certamente Fernando Pessoa tinha razão:
Todas as cartas de amor são ridículas, a minha não é exceção.
Mas, afinal, amar não é também essa espécie de flagelo
Em que se mostra o ridículo, esperando que o outro enxergue o belo?)

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

[o amor é frágil...]


Marcia Szajnbok


o amor é frágil em estrutura
um sopro mais forte de desatenção
de palavra brusca ou gesto mal feito
qualquer coisa a mais ou a menos
é o que basta para lhe fazer um risco
uma trinca, um defeito...
vaso grego, cristal alemão,
porcelana da China, brinco de ouro
também é o amor precioso
- mas, uma vez quebrado
melhor outro...
'

sábado, 27 de setembro de 2008

Diálogos: Drummond com Leminski


AMOR E SEU TEMPO

Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe
`
valendo a pena e o preço terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.

[Carlos Drummond de Andrade]

AMOR BASTANTE

quando eu vi você
tive uma idéia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante

basta um instante
e você tem amor bastante

um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto.

[Paulo Leminski]

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

instantâneos


Marcia Szajnbok

queríamos sempre reter o primeiro encontro
o primeiro olhar, o sorriso, aquela dança...
queríamos segurar o tempo
segurar-nos, um ao outro e aos instantes
mas os dias nos empurram, a vida segue
e tudo que hoje existe, amanhã será lembrança...

então nos perguntamos
depois de tudo, depois de tanto
que fazer com esse amor extemporâneo
que alegra, traz prazer, dói e causa espanto?

queríamos, ah como queríamos...
mas não soubemos bem como querer
nem o quando, nem o onde, nem porquê
e nos perdemos nas esquinas do silêncio
insuspeitos que no outro sempre houvesse
a brasa leve, a chama pronta a reacender...

e então nos questionamos
depois de quase, depois de nada
onde guardar esse eterno momentâneo
que se desfaz, poeira em manhã enevoada?

tua promessa estará sempre
em preciosa caixa bem mantida
quem sabe venhas, quem sabe fiques
quem sabe um dia nos dê a vida...

fonte da imagem: http://i161.photobucket.com/albums/t224/marryannpopcorn/black-and-white.jpg

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Bolhas



Marcia Szajnbok


O dia era cinzento e a menina estava emburrada. Chuvisco e vento frio eram sinônimos de não ir à praia. Os adultos, entretidos consigo mesmos, não davam atenção àquele amuo sentado junto à terraça, os olhinhos lacrimosos postos no mar, lá em baixo. A avó, sempre sutil em seus movimentos, chegou perto, de mansinho. Trazia na mão uma caneca com estranho conteúdo aquoso. Com duas páginas arrancadas de uma revista antiga, produziu em instantes dois canudos improvisados, um para si própria, o outro para a pequena. Passou o canudo pela caneca e assoprou, lançando no ar uma constelação de pequenas bolhas coloridas. A menina sorriu. A avó repetiu o gesto, o menina o fez também. Minutos depois, estavam as duas ali, rindo, suas almas voando, livres como as bolhas de sabão, que ganhavam o espaço indiferentes á garoa, ao frio e aos demais adultos cinzentos.

***

Muitos anos mais tarde...

Uma mulher está só, triste e cinza como o dia que atravessou décadas. A avó, em matéria, já não há. Mas vive - tão querida! - no coração de menina que, dentro do peito, a mulher carrega. Num desses momentos em que a vida parece que está prestes a se desfazer em pequenas partículas de nada, a memória lhe traz de presente a cena de infância. Sem medo do ridículo, pois quem está só não corre o risco dos julgamentos, providencia o aparelhinho de soprar água e sabão. Vista de longe, seria difícil dizer-lhe a idade. A menina grande lança ao ar as bolhas coloridas em plena avenida da cidade pardacenta. A solidão resta, mas a tristeza atenua na mesma medida em que, brilhantes, as pequenas esferas se espalham, sem rumo nem limite.

fonte da imagem:http://z.about.com/d/chemistry/1/0/I/R/soapbubble.jpg

terça-feira, 23 de setembro de 2008

fardo

Marcia Szajnbok

ásperas memórias
arranham sonhos e idéias
machucam a boca
nem chegam a ser ditas

dúvidas inundam
afogadas, as palavras
estertoram e se misturam
criam nova língua incógnita

(nunca mais direi: te amo?)

entre o branco e o preto
toda a gama do arco-íris
se projeta dos meus olhos
mas só o que vejo
é engano
é engodo ou já passou

então
no que, nisto que me resta
de futuro,
poderei crer
eu, a descrente?

para quem
ou para que
ou aonde
hei de levar meu coração
descolorido
frio
e silente?

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

tudo bem, meu bem


Marcia Szajnbok



queria ver-te
mas não vieste
tudo bem, meu bem, tudo bem...
posso viver
sem luz também...

queria um beijo
me recusaste
tudo bem, meu bem, tudo bem...
posso seguir
sem sabor também...

queria amar-te
deste-me as costas
tudo bem, meu bem, tudo bem...
posso existir
sem calor também...

queria tanto
me deste nada
tudo bem, meu bem, tudo bem...
posso calar
e te esquecer também...


fonte da imagem:http://www.giovanipistola.com/

sábado, 20 de setembro de 2008

Poetrix

Marcia Szajnbok

Libertando

abri a janela e meu coração
cinza e frio foi-se embora
fazer o outono lá fora...

***
Múltipla escolha

se fosse possível voltar no tempo
cometeria novamente todos os erros -
exceto o de acreditar em acertos...

***
Desatento

estava em tua mão
me deixaste cair
partiu meu coração...

***
Preguiça

respingos de morte
que tempo de vida
desperdiça

imagem: Amanda Szajnbok de Faria - Luz e Sombra: Nuvens

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Diálogos: Pessoa com Bandeira




PRIMEIRO / O DOS CASTELOS

A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.

O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,

A mão sustenta, em que se apoia o rosto.
Fita, com olhar sphyngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal.

[Fernando Pessoa: Mensagem - Primeira Parte:Brasão]

PORTUGAL, MEU AVOZINHO

Como foi que temperaste,
Portugal, meu avozinho,
Esse gosto misturado
De saudade e de carinho?

Esse gosto misturado
De pele branca e trigueira
- Gosto de África e de Europa,
Que é o da gente brasileira?

Gosto de samba e de fado,
Portugal, meu avozinho,
Ai Portugal que ensinaste
Ao Brasil o teu carinho!

Tu de um lado, e do outro lado
Nós... No meio o mar profundo...
Mas, por mais fundo que seja,
Somos os dois de um só mundo

Grande mundo de ternura,
Feito de três continentes
Ai, mundo de Portugal,
Gente mãe de tantas gentes!

Ai Portugal de Camões,
Do bom trigo e do bom vinho
Que nos deste, ai avozinho
Esse gosto misturado,
Que é saudade e que é carinho
[Manoel Bandeira: Portugal, meu avozinho]

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

proparóxi-poetando

Marcia Szajnbok

ânimos
plácidos

sólidos
flácidos

mágicos
místicos

tônicos
fálicos

plásticos
úmidos

tímidos
cálidos

sílabas
átonas

bêbados
trágicos

óperas
bélicas

lapsos
tácitos


na metrópole cínica
não há pássaros
não há música
e meu cérebro ávido capta
proparoxítonas típicas

entre sinapses míticas
e memórias elípticas
lágrimas lívidas
nas páginas vívidas

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Navio Fantasma


Marcia Szajnbok

Um barco solto vai,
Navega à deriva no mar.
Onde irá?
Por que águas?
Que distância percorrerá?

Um dia aporta.
Uma praia, uma pedra,
Uma onda mais forte
Ou o vento...
Qual o mistério?
O que o tolhe em seu movimento?

Parado, preso, invadido de água e seres
Aprende a olhar, observa habitantes
Perplexo descobre vida ao redor...
Mas os dias passam
Vai-se o sol, vem a lua
E nada muda, nada acontece
Nenhuma surpresa abala a calmaria dos instantes.

De súbito, numa noite sem estrelas
É liberto da areia:
Vaga musica
Perfume encantado
Vai, livre, o barco tocado por uma sereia.

De volta às águas
Sem rota ou rumo
Há de vagar sempre à procura
Do contato único da moça inexistente
Que sonhou sentir naquela noite escura...

O tempo passa
Jamais a encontra
Qual navio fantasma por séculos navega
E reaparece de quando em quando
Na aurora fria em que se ouvem cantos
No horizonte enevoado das manhãs de inverno.

fonte da imagem:http://www.bbc.co.uk/devon/content/images/2006/07/12/creola_430x315.jpg

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

sem palavras

Marcia Szajnbok



debruço-me sobre o dicionário
de A a Z vou percorrendo
palavras e mais palavras:
...amor, bondade, carinho
devoção, estima, filia...
nenhuma me serve
nenhuma faz sentido ou rima
nem completa o pensamento
que, mudo, dentro de mim toma forma
ganha cor e perde as margens
capta-me todo o corpo pelo avesso
e, de dentro para fora,
me despe e transparece
aquilo que sinto e não nomeio
e que, mais real que a realidade,
me permite ser por inteiro
ainda que partida ao meio.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

um pouco do poetinha...

Vinícius de Moraes


A estrelinha polar

De repente o mar fosforesceu, o navio ficou silente
O firmamento lactesceu todo em poluções vibrantes de astros
E a Estrelinha Polar fez um pipi de prata no atlântico penico.


A morte

A morte vem de longe
Do fundo dos céus
Vem para os meus olhos
Virá para os teus
Desce das estrelas
Das brancas estrelas
Das loucas estrelas
Trânsfugas de Deus
Chega impressentida
Nunca inesperada
Ela que é na vida
A grande esperada!
A desesperada
Do amor fratricida
Dos homens, ai! dos homens
Que matam a morte
Por medo da vida.

[Marcus Vinicius da Cruz de Mello Moraes -Vinicius de Moraes - dispensa apresentações. Jornalista, diplomata, compositor, cronista e, sobretudo, poeta, nos deixou algumas das mais lindas páginas da poesia brasileira. Poeta maior, poetinha apenas por carinho. Sua obra é vasta e bem conhecida. Periodicamente postarei aqui alguns poemas desses que não se ouvem a toda hora. Reler Vinícius é sempre redescobri-lo. Reler Vinicius é sempre redescobrir o amor e a vida]

fonte:http://www.viniciusdemoraes.com.br/
fonte da imagem: http://www.viniciusdemoraes.com.br/fotos/sec_fotos.php?anos=60&muda_anos=go

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Estilhaços


Marcia Szajnbok



Amar
Amar-se
Há mar
Se amar
A Marcia... amar-se?
Amar a Marcia - quem haveria?

Estranho cacófato que põe Narciso no espelho...
Será esse o destino humano -
Não amar senão a si mesmo?

Abro a janela da minha solidão egoísta
Procuro, ávida, o cristal de um olhar
A fragilidade ou a força que há de quebrar
Esta redoma invisível
Que me aprisiona e asfixia...


quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Emergência


Marcia Szajnbok


O prédio tinha todo o estilo dos anos cinqüenta. Mesmo depois de reformas superficiais, a estrutura se manteve antiga. Talvez por isso a despreocupação com o isolamento acústico. À época de sua construção, provavelmente as pessoas não se sentiam tão invadidas em sua privacidade, não andavam todo o tempo tão armadas contra o outro, tomado sempre como inimigo iminente. Com as novas portas corta-fogo, a escadaria em caracol se transformara em câmara de eco, de modo que era possível ouvir qualquer coisa dita nos lances acima ou abaixo.
Logo ao abrir a porta do quarto andar, ela se deparou com o choro. Um soluçar forte subia pelo vão livre da escada. Temos todos algo dentro de nós que nos impulsiona para o segredo, ouvir atrás de portas, espiar pela fechadura. Tomada por curiosidade quase infantil, foi descendo devagar, pé ante pé para não assustar quem quer que fosse o dono do choro. Aprumou o ouvido: parecia choro de mulher.
A cada degrau que descia, mais nítida se tornava a cantilena. Se a vida real tivesse, como filmes, uma trilha sonora, deveria agora ouvir o Prelúdio da Bachiana no4, de Villa-Lobos, a trilha perfeita para captar essa forma tão peculiar que os brasileiros têm de ser triste: mistura-se à nostalgia portuguesa um pouco de desespero africano e de lamento indígena, quase silencioso; põe-se tudo isso ao sol e ao som de risos de crianças morenas e muito magras e pronto, está feita uma tristeza brasileira.
Envolta nessas divagações, ultrapassou a porta de acesso ao terceiro andar e ainda não via ninguém. Seguia o som apenas. Lembrou-se do avô e da história tantas vezes repetida do flautista que, com sua música, encantava os ratos e os levava embora da cidade. Sentia-se assim, um rato encantado pelo choro dolorido de alguém que ainda não via. Continuava, hipnotizada, descendo, descendo. Pensou que poderia ser um rato num castelo mal-assombrado, habitado por fantasmas sofredores que enchiam o ar com seus ruídos lamuriosos à espera da redenção, por parte de algum vivo corajoso, de suas dores passadas.
O volume crescia agora, devia estar perto a mulher que chorava ininterrupta. À medida que se aproximava, uma dor sem nome ou motivo a contaminava mais e mais. Seu corpo, seus pensamentos, ela toda funcionava agora como uma caixa de ressonância para o mal-estar disforme que emanava daquela criatura. Em segundos, delineou uma constelação de associações: fatos, temores, pensamentos, situações, palavras. Tantas palavras para circunscrever aquela agitação de sentimentos, aquela pulsação de um não-sei-quê interno que transbordava, muitas vezes no final da tarde dos domingos, quando a vida sempre corria o risco de parecer sem sentido ou valor.
Na virada do penúltimo caracol da escada, avistou-a. De costas, encolhida junto à parede em posição quase fetal, as mãos entrelaçadas em torno dos joelhos, a cabeça deitada sobre as mãos. Parecia uma menina muito magra, miúda. O cabelo era curto, pintado de um vermelho berrante, espetado em estalagmites de gel fixador. Havia tatuagens por toda a nuca e parte dos braços. Fora da segurança habitual, perguntou-se: devia parar ou continuar descendo como se não a tivesse visto? Com certeza se tratava de uma paciente. Num hospital psiquiátrico, alguém naquela condição só podia ser paciente. Uma cena insólita: a paciente sentada na escada, chorando, sozinha. A doutora em pé, alguns degraus acima, paralisada sem saber muito bem como se comportar. Havia naquela moça uma certa impertinência. Aquele não era lugar para ficar chorando, afinal! Que fosse chorar no resguardo de uma sala, durante a consulta, no espaço protegido pela porta e pelo sigilo médico. Ali, na área de circulação, seu choro desafiava o mundo. Ela chorava como se discursasse. “Não sou eu a depressiva? Pois bem... vou sê-lo... Mas serei depressiva bem aqui, no meio do caminho, para que todos precisem se perguntar o que fazer com a minha dor... E que atire a primeira pedra, aquele dentre vós que nunca tiver sentido dor”.
Sem pensar muito, desceu os degraus que faltavam e sentou-se também na escada, ao lado da moça do cabelo carmim. Depois de alguns momentos, ciente da presença alheia ali tão próxima, ela levantou os olhos enormes, muito verdes, cílios longos. Em algum lugar dentro de sua mansão mal-assombrada a doutora reconheceu aquela expressão. Perda, solidão, desamparo. Ficaram ali, alguns segundoseternidades, olhando-se reciprocamente, em silêncio. Duas mulheres quaisquer, compartilhando esse tipo de angústia que só as mulheres sabem sustentar.
Na falta de coisa melhor, a doutora estendeu para a moça um pacote de lenços de papel que tirou da bolsa. Ela aceitou a oferta, inicialmente com os olhos postos nos lenços, como que a reconhecê-los, sem muita certeza quanto a sua utilidade. Vista assim de muito perto, com o rosto vermelho, inchado e molhado, ela não parecia tão jovem. Havia uma discordância entre o rosto e o resto do corpo, como se a cabeça tivesse vindo décadas antes. Sorriu um sorriso um tanto sem graça, em agradecimento. O que agradecia? Os lenços? O olhar cúmplice? O instante de companhia?
Sorriu de volta a doutora, sem muita consciência de que também ela estava de algum modo grata. Levantou-se, despediu-se da suposta paciente com um aceno, sem palavras. Viu de relance, ao iniciar a descida do último lance da escada, que ela abria o pacote e enxugava o rosto com os lenços. Depois seguiu adiante em direção à porta da rua. Sentia uma espécie de alívio. Não o alívio do dever cumprido, pois não houvera dever algum posto em questão. Uma espécie de suspiro íntimo, desses que se dão diante do espelho, ou por vezes só no escuro do quarto depois que o mundo adormece. O conforto da possibilidade, do laço, da ponte, do puro e nada simples contato com o outro humano. O dia estava lindo. Em seus ouvidos, Villa-Lobos cedera lugar a um samba. Uma típica manhã de primavera brasileira: céu azul, sol forte, os ipês todos floridos. Saiu cantarolando “a dor da gente não sai no jornal”...

terça-feira, 9 de setembro de 2008

menos







Marcia Szajnbok

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Dupla Face


Marcia Szajnbok



Onde, enfim, o meu lugar?


Eu, que tanto sonhei com o mundo,
Me esqueci de caminhar...
Que queria ir com as ondas,
Não aprendi a nadar...
Pensei-me pássaro de asas grandes
Não fui capaz de me lançar...

Como, então, hei de unir
Corpo e mente em conflito
Tão distantes...
Um sempre estático, pés no chão, âncora.
A outra liberta, fugidia, em eterna busca
Mutante.



sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Ismália



Alphonsus de Guimaraens


Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...


[Afonso Henriques da Costa Guimaraens, nasceu em Ouro Preto (MG), em 1870 e faleceu em Mariana (MG), em 1921. Bacharelou-se em Direito, em 1894, em sua terra natal e colaborou em vários jornais, mineiros e paulistas, desde os tempos de estudante. Seu primeiro livro de poesia, Dona Mística, (1892/1894), foi publicado em 1899. Outras obras incluem "Kyriale" (1902), e as publicações póstumas "Pauvre Lyre" (1921), "Pastoral dos Crentes do Amor e da Morte" (1923), "Poesias" (1938). Fez parte do grupo simbolista de São Paulo e sua poesia é marcada pela espiritualidade. Admirador de Cruz e Souza e influenciado por Verlaine, também apresenta melancolia e ternura. A morte de sua noiva Constança, em 1888, marcou profundamente sua vida e sua obra, e é tema recorrente.]